Nossa entrevistada é graduada em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. Dirige a empresa Africa Consulting Desenvolvimento Humano e Relações Internacionais, que oferece cursos de pós-graduação em Diplomacia Brasileira e Relações Internacionais e de Estudos Africanos: Desenvolvimento Humano e Docência, ambos realizados em parceria com o Instituto Superior de Estudos Pedagógicos. Estamos falando da professora Rita de Cássia Barbosa Barros.
RMPB: Professora Rita, as relações do Brasil com Angola surgiram na época em que o nosso país e esta nação africana eram colônias de Portugal. Fale um pouco sobre esta amizade histórica.
Profª Rita: As relações entre África e Brasil surgiram por conta dos interesses comerciais e do tráfico de escravos. Boa parte dos escravos veio de Angola. O Movimento Abolicionista nunca foi interessante para uma camada de comerciantes que se postava na Costa do Atlântico porque vivia deste comércio. As idéias abolicionistas colocavam em xeque a possibilidade lucrativa de negócios. O pensamento de que, nessa época, Brasil e Angola se tornariam nações irmanadas pela liberdade, independência e abolição, foi dissolvido pela historiografia brasileira, pois não era bem assim. A abolição e a independência não iriam interessar, porque as bases da relação entre os dois países eram muito comerciais e fincadas no tráfico de escravos.
No entanto, uma relação específica, mais próxima, pontual e diplomática, se daria efetivamente a partir do século XX, época distanciada desta história que envolveu o Brasil colonial e Angola, dos tempos da mão-de-obra escrava. Em 1975 o Brasil reconhece imediatamente a independência angolana. Isso foi um diferencial, porque muitas nações demoraram a reconhecer. Quem assume o poder em Angola passa então a olhar o Brasil com mais simpatia. Entretanto, Angola mergulharia numa guerra civil, com todos seus problemas internos. A violência já datava dos anos 50 e 60, quando o país lutava contra Portugal pela independência. A guerra civil angolana, ocorrida entre 1976 e 1991, foi classificada como uma das mais violentas do Continente Africano.
Uma nova mudança nesta relação bilateral viria no final dos anos 80, início dos anos 90. Na ocasião, uma série de rodadas intelectuais, artísticas, culturais, debates, colóquios, cimeiras, aconteceram nos países africanos de língua portuguesa, eventos liderados pelo Brasil. De 2000 para cá, a relação se torna intensa. O Brasil enxerga a África de outra maneira. O Governo Federal toma decisões nunca antes adotadas por uma gestão brasileira, e faz fortes acordos com o Continente Africano. O Brasil passa a ser uma referência de liderança dos países em desenvolvimento, dos países periféricos. E Angola está inserida nesse contexto. Além do que uma grande parte do empresariado brasileiro está no território angolano. Então, hoje, você pode dizer que as relações entre Brasil e Angola são íntimas, constantes, diversificadas. Hoje a gente enxerga concretamente, na minha opinião, essa relação. Algo muito nebuloso nos idos dos anos de 1800, no período da independência brasileira. Acho que isso está muito pontual e o que inaugurou essa relação próxima entre Brasil e Angola foi o século XX.
RMPB: Profª Rita, a srª passou dois anos em Angola. O que observou sobre a música e a dança, como o Kizomba, Semba e outros ritmos?
Profª Rita: Música e dança são fenômenos que integram a personalidade do angolano. A impressão que tenho é que nascem sabendo dançar e fazer música muito bem. Eles têm uma característica musical, rítmica maravilhosa. É contagiante, visceral e visível. Você vê isso na criança e no idoso, é uma marca muito forte do povo angolano. Eles cantam e dançam com uma facilidade, com um rigor, uma beleza, com um ritmo, que parecem estar enfurnados numa escola de dança por cinco meses ensaiando. Mas não. Se eles estão na rua, por qualquer motivo, cantam e dançam. Não precisam estar num teatro. Têm uma qualidade vocal e rítmica impressionante.
RMPB: Esta alegria e sensualidade de raiz auxiliaram o povo angolano a resistir os difíceis anos de guerra civil?
Profª Rita: Acredito que sim, porque a arte para o povo africano é uma marca de celebração. Seus ritos de celebração, seja lá que motivação tenham, são muito fortes. Eu acredito que a relação que o povo angolano tem com o sagrado nos momentos da dificuldade, dos perigos, colabora. Isso não soluciona o problema do perigo, não solucionou o problema da guerra, não acabou com a violência da guerra e com as perdas que inúmeras famílias tiveram. A arte e a dança não impediram mutilações por conta de minas terrestres. A arte não acabou com o sofrimento da guerra, mais acredito que facilitou a visão de esperança para o povo em relação ao futuro. Eu acho que a arte faz isso com o temperamento das pessoas, com o seu afetivo e isso independe de países. Mas como a arte é uma marca muito forte e visceral do angolano, eu acredito que ela tornou o povo mais resistente diante das dificuldades. Mas que fique claro que a arte não resolveu os problemas.
RMPB: Quais influências Angola exerce na arte brasileira?
Profª Rita: Eu percebi que o Brasil é herdeiro dessa arte angolana. A herança rítmica é a mais forte. Essa malemolência, esse molejo, essa facilidade rítmica que o brasileiro tem, ela é muito visível em Angola e muito mais profunda. Esta herança invade o canto e a interpretação brasileira. Outra coisa que eu vi foi que o Brasil herdou o colorido africano, o colorido de Angola, a arte em tecido, em pintura. É extremamente viva, ela vibra, é solar. Eu reconheço isso no Brasil, a arte brasileira se relaciona muito bem com esse espÍrito solar de Angola.
RMPB: Como a professora definiria Angola hoje?
Profª Rita: Angola de hoje é múltipla, de muitas possibilidades e desafios. Angola vive, hoje, um momento controverso. Porque existem ações dirigidas para sociedade angolana que visam um progresso acelerado. Mas, ao mesmo tempo, esse progresso acelerado não atinge a todas as pessoas. Ele existe na construção civil, e se localiza em Luanda, capital de Angola. Hoje se encontram estradas belíssimas, até uma determinada extensão perto da cidade. Esse crescimento acelerado não acompanha a necessidade de resolver o problema do desenvolvimento humano. Então você tem em Angola, por exemplo, um condomínio belíssimo, de mansões lindíssimas, numa calçada. Em outra, você tem um a grande favela, que eles chamam de musseque. Um grande musseque diante de grandes mansões. Nessas grandes mansões poucas pessoas irão morar. Quem tem acesso a esses progressos é uma parcela diminuta da população que, por uma série de caminhos, conseguiu chegar a um patamar de estabilidade econômica. Mas a maioria dos angolanos vive no musseque ou nas ruas. Oitenta por cento da população reside na capital e o restante no interior. No período da guerra civil, as pessoas fugiam do interior para a capital, na esperança de fazer negócios, de se proteger. Hoje, se mudam na esperança de melhorar de vida. Esse é o maior desafio: fazer com que esse crescimento seja equitativo, não só em Luanda, mas também no interior.
RMPB: Fale das atividades da empresa Africa Consulting Desenvolvimento Humano e Relações Internacionais.
Profª Rita: A Africa Consulting tem alguns projetos na área do desenvolvimento humano, projetos ligados especificamente ao Continente Africano para o progresso de setores básicos como saúde, educação, família, mulher e criança, e desenvolvimento agrícola sustentável. Essa é uma das esferas dos nossos serviços. Temos outra, ligada à educação, aqui no Rio de Janeiro. Realizamos cursos de pós-graduação em parceria com o Instituto Superior de Estudos Pedagógicos e a Faculdade Bethencourt da Silva. Atualmente ministramos quatro. Um dos cursos é o de Diplomacia Brasileira e Relações Internacionais que prepara para o ingresso no Itamaraty, inclusive incentivamos aos afrodescendentes a procurarem esse curso. Existe uma bolsa de incentivo do Itamaraty para afrodescendentes, e precisamos abrir acesso a esta carreira. Temos essa preocupação, é um curso muito carinhoso para mim e para o professor Montalvão que dirige a Africa Consulting junto comigo. Temos um curso de estudos africanos, que está em andamento e indo muito bem. O curso Estudos Africanos Desenvolvimento e Docência, trata do Continente Africano e, após sua realização, o aluno tem a oportunidade de viajar à África, conhecer um país, observar uma comunidade local e tentar relacionar com o que aprendeu em sala de aula. Também ministramos os cursos de História e Patrimônio Histórico do Rio de Janeiro e o de Diplomacia e Segurança Internacional. Alguns cursos estamos oferecendo fora do Brasil, como na República de Camarões e em Angola.
Para terminar gostaria de agradecer pelo espaço que a Rádio Música Plugada Brasileira nos concedeu e pelo carinho com o qual fomos recebidos. Além de parabenizar toda equipe da Rádio pelo excelente trabalho que realizam. Todos os ouvintes e internautas ligados no site da Música Plugada Brasileira estão convidados para conhecer nosso trabalho e nossos cursos de pós-graduação. Vou deixar os telefones e e-mail.
Para informações sobre os cursos de pós, ligar (21) 2221-9221, que é o telefone do ISEP. Para o trabalho com o continente africano ligar para (21) 2278-3975 ou escrever para africa.consultingltda@gmail.com
Forte abraço!
Por Patrícia Lima