Música Plugada Brasileira – Você sempre declarou sua paixão pelo samba, interpretando nomes como Jackson do Pandeiro e Dona Ivone Lara. De onde surgiu essa paixão pelo samba?
Moyséis Marques – Isso [Essa paixão] é normal para todo mundo que se interessa por música, principalmente brasileira, o samba é a nossa maior identidade cultural, é uma das músicas de maior relevância na história da música popular. Todos os grandes artistas da MPB gravaram sambas, isso no sentido equivocado da palavra, porque quando vamos fazer um show, por exemplo, geralmente está no cartaz “Moyséis Marques: forró, samba e MPB”, como se forró e samba não fosse MPB. No entanto, a gente acaba atribuindo esse rótulo MPB a um grupo de compositores versáteis que cantam e tocam como Djavan, Chico Buarque, João Bosco, e que na verdade fazem de tudo, porque se você for destrinchar a obra desses artistas, vai ver que eles também gravaram Zé Keti, Dona Ivone, vai encontrar tudo isso no repertório. Então, acho que todo mundo que se interessa por música acaba mergulhando nesse universo do samba. Eu quando entrei em contato com essa história me apaixonei, me identifiquei completamente, mas do que com o ritmo, mas com a filosofia, com a dignidade, com as letras. O samba tem muito essa coisa da letra, as pessoas cantam a letra, todo mundo se identifica com alguma parte dela. Eu acredito que o samba tem uma capacidade de transformação, assim como transformou a minha vida, já transformou a de muita gente, muitos amigos meus. Até pelas vertentes, pela vastidão do repertório, de origens. Dentro de uma agremiação se encontra vinte, trinta compositores cada um deles com 200, 300 músicas, então é um universo, um oceano quase sem fim, para você mergulhar e pesquisar. Você sempre vai achar no samba um negócio com que vai se identificar, e eu me identifiquei muito com essa cultura, com esse mundo.
MPB – No palco, você busca muito a interação com o público. Você considera o seu show como sendo uma roda de samba?
Moyséis Marques – O samba é o povo, a gente não pode colocar o samba numa redoma de vidro. A própria origem da palavra pagode, que hoje em dia virou uma referência de música ruim, samba de má qualidade, na verdade significa uma grande festa, uma cantoria onde todo mundo participa. O artista passa a ser o condutor dessa roda, tocando o que as pessoas querem ouvir, o que o momento pede.
MPB – Você fez muito o circuito Lapa. Você acha que o público que freqüenta a noite na Lapa é diferente dos demais públicos para o qual você se apresenta?
Moyséis Marques – Eu acho que é diferente o local, a forma como isso se apresenta, por exemplo, no teatro as pessoas estão sentadas. Já na noite, as pessoas estão ouvindo a música e fazendo milhões e milhares de outras coisas, estão bebendo, conversando, namorando. E cada ambiente é um ambiente, o samba tem um público com faixa etária muito variada, por isso há ambientes com pessoas mais velhas, ou com uma rapaziada mais nova. É especial tocar em um teatro, poder mostrar o que eu faço, e ver as pessoas prestando atenção na letra, rindo e aplaudindo. Mas talvez por eu ser da noite, penso que estou ali mais para conduzir uma história, para todo mundo ser feliz juntos.
MPB – Como você avalia o cenário atual da MPB (Musica Popular Brasileira). Quem você poderia citar como um novo nome?
Moyséis Marques – Agora a gente está vivendo um momento muito especial na Lapa, o Rio de Janeiro, é uma capital cultural, uma metrópole enorme, onde a gente está sempre sofrendo influência de vários cantos. Temos uma geração naturalmente mais versátil, mais antenada, uma geração que está procurando se renovar, pesquisar, beber nas fontes. A velocidade de informação afeta tudo, no meio musical não é diferente. E na lapa se encontra não só músicos do Rio, como músicos do Brasil inteiro que vem para ver o que está acontecendo. Há verdadeiros gênios tocando lá. Pessoas que eu acho que vão ser faladas no futuro e que eu tenho o prazer de trabalhar, como José Paulo Becker. O pessoal de Brasília: Hamilton de Holanda. Cantoras maravilhosas, cada uma com seu estilo, como Tereza Cristina, Ana Costa, Nilze Carvalho, Luisa Dionísio. Além do Marcos Sacramento, Diogo Nogueira, com quem estou tendo o prazer de fazer vários trabalhos, e é um artista com bastante expressão. Então, acho que esta é uma geração que vai dar o que falar. E o melhor caminho é se unir, porque em todos os movimentos que surgiram ninguém apareceu sozinho, Bossa Nova era uma série de compositores, e é isso que a gente tem que alimentar. É uma geração que vai ser falada, pode até ser que as pessoas não gostem, mas vão falar... (risos).
MPB – Para encerrar, Moyséis, deixa um recado para os ouvintes da rádio música Plugada Brasileira.
Moyséis Marques – Atenção na música brasileira, porque ela é um dos nossos maiores tesouros, é uma das coisas que faz o Brasil ser uma grande potência no mundo todo, que o faz alcançar seu lugar ao sol. São 500 anos de exploração convertidos agora numa música diversa na síncope, na veia, na mistura de ritmos, num músico sem limites, sem fronteiras, sem preconceito.
“Quando entrei em contato com a história do samba me apaixonei, me identifiquei completamente, mas do que com o ritmo, mas com a filosofia, com a dignidade, com as letras”.
“O samba tem uma capacidade de transformação, assim como transformou a minha vida, já transformou a de muita gente, muitos amigos meus”.
“É um universo, um oceano quase sem fim, para você mergulhar e pesquisar".
Por Felipe Lins
Fotos - Raíza Maria